Blog de marcelo.tieppo


28/03/2014


Senna em Paris, Tieppo na Javari

E lá se vão quase 20 anos da morte de Ayrton Senna. Dez entre dez brasileiros provavelmente lembram o que faziam ou onde estavam quando o ídolo morreu. Eu também tenho a minha lembrança, mas essa vai ficar para uma próxima.

Já são também quase 20 anos da primeira cobertura como jornalista em uma Copa do Mundo. Na retaguarda da Folha da Tarde, ao lado de Toni Assis, Wagner Prado, Almir Leite, Marcon Beraldo, Mauro Beting, Vicente de Aquino, José Roberto Malia e por aí vai.

A minha história com o Senna começou dez dias antes, em um amistoso entre Brasil e um combinado Paris Saint-Germain e Bordeaux. Realizado no dia 20 de abril de 94, a partida teve o pontapé inicial do Senna. Eu fui preparado para entre uma matéria e outra acompanhar a partida pela tv, mas ao chegar na redação, o mestre Malia, que eu já homenageei no blog, me passou uma de suas missões: "Tieppão tem um jogo do Juventus hoje na Javari e você vai lá pra ver quem são os malucos que vão trocar o jogo do Brasil para ver o Moleque Travesso em ação."

Na hora, pensei que tinha pego uma tremenda roubada, afinal ia perder o jogo da Seleção para ver o simpático Juventus, que naquela época ainda aprontava de vez em quando pra cima dos grandes. Estava pra lá de enganado.

Tinha pouca gente, é claro, mas quem já foi na Javari sabe o quanto aquilo ali rende pauta. Torcida Ju-Jovem, vendedor de amendoim reclamando do prejuízo, torcedores que vc consegue contar sem esforço e o melhor da história: uma goleada daquelas: 5 x 2 para o Moleque Travesso. Confesso não lembrar do adversário, mas leio agora que era aniversário de 70 anos do time da Mooca naquele dia.

Voltei pra redação e fiquei sabendo que o jogo do Brasil tinha sido horroroso, um 0 a 0 sem emoção e já bolei o título: "Juventinos saem no lucro".

Feliz com a missão cumprida, recebi um elogio tardio dois anos depois, quando estava de saída da Folha da Tarde, do então editor de esporte, o Vicentão, que disse que a partir daquele dia ele teve a certeza de que eu era um grande repórter.

Enfim, quatro anos depois lá estava eu, garoto da Mooca, crescido no Brás, com direito a primeira comunhão no Pari, indo para Paris, cobrir uma Copa do Mundo. 

 

 

 

Escrito por tieppo às 04h55 PM
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26/02/2014


Coração de atleta

Nos últimos preparativos para a minha quinta cirurgia, a enfermeira perguntou se eu praticava esporte.

Eu respondi que tentava correr pelo menos duas vezes por semana  e se sobrava um tempinho jogava tênis.

“Ah por isso que seu batimento cardíaco é baixo. Parabéns!”

Eu fiquei feliz e surpreso com a revelação, porque antes da minha primeira cirurgia pra passar no teste ergométrico tinha sido um sufoco. E sem contar os exames de colesterol e outros menos cotados que só referendavam minha vida sedentária.

Eu fumava antes da primeira cirurgia, sofria uma pressão anormal no ambiente de trabalho e o tumor, que deveria crescer lentamente, acelerou mais do que deveria. Foram tempos de dúvida, desalento, depressão.

Hoje eu passei em consulta com o Dr. Marcos.  Ele andava meio sumido do blog, mas era aquele que tinha me dito na época da primeira ablação, em 2010, que o que ele havia percebido uma pergunta em comum entre as pessoas que descobriam a doença: “será que eu estou fazendo a coisa certa?”

Eu demorei pra conseguir responder corretamente. Não havia outra saída no momento. Mas eu reagi, perdi o que eu nunca tive, encarei outras três cirurgias depois daquela e hoje eu ouvi do mesmo Dr. Marcos que chegou a hora de enfiar a doença no saco e relaxar.

Não, ele não me disse que eu estou curado e nem poderia. Não, eu não posso comemorar a vitória antes da hora, porque a vida me ensinou que tudo muda rapidamente. Uma escolha errada, uma doença inesperada e por aí vai. Como dizem só acaba quando termina.

Mas o que mudou? A doença está no ritmo esperado. Os tumores crescem muito, muito lentamente.  Esse aí de menos de um centímetro que já foi devidamente queimado é o mesmo que apareceu uma época, depois sumiu (não tinha sumido, mas de tão pequeno não apareceu em alguns exames). Outros três menores ainda também já foram devidamente pro saco.

Ele citou casos parecidos com o meu de que o sujeito fica sob cuidado mais de dez anos. Os tumores crescem depois de alguns anos e aí queima de novo. Tudo bem dói um pouco depois, mas o fígado tá inteiro, já já se regenera.

Pra quem se assustou com a rapidez da cirurgia, podem relaxar. A coisa foi resolvida aos 44 do segundo tempo porque há sempre a burocracia do convênio. Eu tinha até outros compromissos marcados, mas nada é mais importante do que a minha saúde.

E pra quem já teve até a morte anunciada, eu sigo bem, com o coração tranquilo, a alma inquieta e pronto pra novos desafios.

Como vou ter que enfiar a doença no saco, quem sabe o blog, que foi criado pra falar de futebol, volte às origens.

 

Meu Deus!!!!!

Escrito por tieppo às 06h24 PM
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09/11/2013


Sete Vidas

Sete de novembro. Ela chegou sete minutos atrasada e perguntou pelos meus sete filhos. São só quatro, eu respondi. Perguntou se eu ainda jogava tênis. Eu tento. Na última vez, levei de três sets a zero, respondi.

O gelo estava quebrado. Mas sete minutos depois ela me disse que um tumor de 0,7 cms havia aparecido no fígado. Disse pra não me preocupar, porque isso poderia mesmo acontec.er. Ele cresce lentamente, faz um ano que você não toma remédio, um ano e meio que você não faz quimioterapia. Fora do script, apenas uma lesão na coluna que precisava ser analisada por outro exame.

Saí da consulta e avisei a atendente que precisava fazer dois exames: um de sangue, que eu havia esquecido de fazer, e uma ressonância, que era importante fazer rapidinho também. Ela conseguiu um encaixe pra mim, o que não é fácil nesse tipo de exame.

Depois de passar em casa e contar pra Erica como havia sido a consulta, eu decidi ir a pé até o hospital, pela avenida Paulista, para arejar a cabeça. Uma  hora e sete minutos depois, eu estava lá aguardando minha vez. Sete pessoas na minha frente, mas até que foi rápido, porque só consegui jogar sete vezes o Candy Crush. Se bem que só não joguei mais porque acabou a bateria do celular.

Travei um diálogo interno para entender porque sempre simpatizei com o número sete. Talvez por ter nascido em 67, que aliás é o ano de lançamento do Sgt Pepper´s, dos Beatles. Bons motivos. O meu RG tem quatro setes, 50% de aproveitamento, tá melhor que o meu Corinthians.

Por falar em Corinthians, o jejum de títulos acabou em 77 e parei de pensar no número 7, porque nesse momento fui chamado para fazer o exame e porque também tinha acabado de achar a principal resposta para ter tanta simpatia por esse número.

Na hora de me trocar para o exame, me deram a chave do armário de número sete. Não eu não saí dali para ir ao Jockey apostar no cavalo 7 para comprovar se ele ia chegar em sétimo lugar. Prefiro acreditar que como o gato eu também tenho sete vidas, embora já tenha gastado algumas.

O resultado do exame na coluna saiu no dia 8. Foi só um susto. O sete traz mesmo sorte.

Escrito por tieppo às 07h11 PM
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16/07/2013


Aventura no Paraguai

 

Em março de 99, viajei com o Corinthians para acompanhar pela Gazeta Esportiva os dois jogos que a equipe faria contra Olimpia e Cerro Porteño, pela Libertadores daquele ano. Quando eu cheguei no Paraguai, o vice-presidente tinha acabado de ser assassinado e o aeroporto foi fechado logo depois.

Com a intermediação do Luciano Borges, que era chefe de reportagem do jornal à época, a Folha me pediu pra fazer uma matéria sobre o clima do país naquele momento.

O resultado vcs podem ler aí abaixo, matéria que localizei pelo acervo da Folha de S. Paulo.

Foi uma bela experiência. Além de escrever para a Folha de S. Paulo, atendi outros veículos, cheguei a dar entrevista por telefone para a ESPN Brasil. Chegaram a cogitar o cancelamento do jogo do Corinthians e o mestre Tostão me questionou sobre isso. Naquela altura a partida já estava confirmada e os jogadores não tinham contato com os tumultos, porque o hotel ficava afastado do centro de Assunção. A tranquilidade só não era total, porque eles estavam em pé de guerra com o técnico Evaristo de Macedo. Mas essa é uma outra história para um outro post.

 

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Com protestos, país vive clima de conflito

MARCELO TIEPPO
especial para a Folha, de Assunção

O assassinato do vice-presidente do Paraguai, Luís Maria Argaña, criou um clima de guerra civil em Assunção, capital do país.
Os partidários de Argaña mantiveram-se em vigília na praça da Liberdade, em frente ao Congresso Nacional. Eles carregavam faixas com dizeres como "Fora Cubas", "Abaixo a Ditadura" e "Argaña Vive".
Na madrugada, partidários de Argaña, acompanhados de sem-terra, entraram em confronto com a polícia. Houve 30 feridos.
A confusão continuou durante todo o dia, mas a polícia tentou impedir que partidários de Argaña e defensores do general Lino César Oviedo se enfrentassem. Ambos os grupos usavam rojões como se fossem bombas caseiras.
Para o jornalista Derlis Souza, filiado ao Partido Democrata Cristão, de oposição ao governo de Cubas, com o enterro de Argaña, houve uma trégua, que não seria duradoura.
"Os argañistas vão querer revanche. A situação só se acalmou por causa do enterro do vice-presidente", disse Souza. Argaña foi enterrado às 16h (15h em Brasília).
Muitos jovens pintaram os rostos com as cores da bandeira paraguaia (branco, vermelho e azul). A greve geral, convocada pra durar 24 horas, no entanto, foi parcial.
O transporte coletivo teve quase 90% de adesão, mas outros setores não aderiram ao movimento. O comércio local funcionou normalmente, mas poucas pessoas apareceram para fazer compras.
A greve foi convocada pelas centrais sindicais, a Central Unitária de Trabalhadores e a Central Nacional de Trabalhadores.
As manifestações foram comandadas pelo setor argañista do Partido Colorado, ao qual também pertence Raúl Cubas.
Participaram partidos de oposição como o Partido Democrata Cristão, o Partido Liberal Autêntico, o Partido do Encontro Nacional e o Partido da Revolução.
Tentando acalmar os ânimos dos manifestantes, os oradores do comício pediam calma e cuidado com as provocações dos oviedistas. Eles citavam o início do processo de impeachment contra o presidente Raúl Cubas como prova de que a situação caminha para uma solução pacífica.

Escrito por tieppo às 08h57 PM
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30/06/2013


O furo que (quase) ninguém leu

No dia 1º de junho de 1990, a minha carteira de trabalho mostra o meu primeiro registro como jornalista, ou quase, porque eu fui registrado como auxiliar de comunicação, já que era proibido fazer estágio em jornalismo naquela época.

Era para ser um emprego temporário, durou mais de dois anos, e o empregador era o Instituto Nacional de Formação, que na verdade era a CUT Nacional. No meio do caminho, em 92, o PC do B assumiu a Secretaria de Comunicação e como o partido foi o primeiro a pedir o impeachment do então presidente Collor, me pediram para ouvir Lula sobre o que ele achava desse pedido.

O detalhe era o seguinte: só o PC do B falava em impeachment. As denúncias não haviam tomado a proporção que tomariam alguns meses depois e os caras pintadas ainda estavam em casa. Mas eu achei o máximo ter a chance de entrevistar o Lula e na minha cabeça seria uma moleza: era só ligar e marcar.

Doce ilusão. A assessora do PT Nacional disse que a agenda dele estava lotada e por isso era melhor eu mandar as perguntas por fax. Não desisti e lembrei que era importante ouvir o Lula, porque ele seria a capa do Boletim Interno da CUT, que era distribuído para todos  os sindicatos.

Claro que não acrescentei que era importante principalmente pra mim que teria a chance de entrevistar o homem que quase foi eleito em 89 (perdeu com todas as baixarias que ninguém conseguiria imaginar) e que foi o meu candidato naquele ano e nas outras eleições.

Venci a parada algumas semanas depois. E no dia marcado lá estava eu entrevistando o Lula, que fumava charuto, e macaco velho me enrolava fácil fácil. Mas eu também não desisti e consegui arrancar dele a frase que o PC do B tanto desejava e que alguns meses depois também seria a frase de desejo de quase todos os brasileiros: "nesse caso, vamos ter que pedir o impeachment do Collor". 

Eu não lembro qual foi a pergunta, mas era algo na linha mas e se as denúncias aumentarem ou forem comprovadas? Missão cumprida. Foi o que chamam de furo, porque Lula não havia dito nada parecido com isso para a imprensa. Mas a entrevista ficou restrita ao Boletim Interno da CUT. Naquela época a internet estava engatinhando e só fazia parte do mundo acadêmico. Foi um furo que quase ninguém leu.

Escrito por tieppo às 03h56 PM
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31/01/2013


Força, Nicolau!

Tenho acompanhado pelo facebook a luta do amigo Nicolau Radamés Creti, que hoje mora em Pirassununga, interior de São Paulo, e está fazendo quimioterapia. O bom humor, a grandeza de espírito e a alegria do Nicolau são contagiantes. E a rede de apoio virtual segue firme e é fundamental nesse processo de recuperação, como eu sei bem.

Eu já conhecia o Nicolau dos tempos em que ia no Diário Popular, aos domingos, ajudar no plantão, correndo atrás de informações das divisões inferiores do Paulistão. Naquela época, eu trabalhava na Editora Vozes e ele achava o máximo eu ser redator da Revista de Cultura Vozes e ter passado antes pela Assessoria de Imprensa da CUT Nacional. E como nunca estamos satisfeitos o que eu queria mesmo era entrar na chamada grande imprensa, como ele já conseguira há algum tempo.

O tempo passou e em dezembro de 96 fui escalado pela Gazeta Esportiva para  cobrir a festa dos melhores do ano do COB, no Rio de Janeiro. Nicolau estava lá pelo Diário Popular e lembro que no dia seguinte arrumamos tempo para dar uma caminhada pelo calçadão de Copacabana, que é sempre prazeiroso e energizante.

Além das coberturas esportivas, tivemos um encontro engraçado em um shopping de São Paulo. Era uma dessas promoções de Natal e se você gastasse uma determinada quantia tinha direito a fazer uma massagem de graça. A fila era enorme e eu e Nicolau demos boas risadas, enquanto aguardávamos a nossa vez.

Fiquei um tempo sem ter notícias suas, mas ao ler os textos no face tive a certeza de que você está pronto para dar a volta por cima. O destino nos uniu indiretamente mais uma vez e o final feliz é só uma questão de tempo.

Amigo, eu hoje estou na fase de acompanhamento.  E a boa nova é que o exame de sangue realizado recentemente deu normal. Em breve, você também vai nos brindar com boas notícias.

Força, Nicolau!  

Escrito por tieppo às 01h11 PM
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13/12/2012


Um novo ciclo

2012 entra na reta final e eu estou pronto para acelerar no novo ano que vai chegar.

Que acompanha o blog sabe que havia dado uma alteração em um exame,  que é uma espécie de marcador tumoral. Mas eu refiz o exame de sangue e a boa notícia é que ele voltou ao nível normal.

Um novo ciclo vai começar. 2012 já entrou para a minha história como o primeiro ano, depois da descoberta do câncer, que eu não tive que fazer nenhuma cirurgia. Momentos de paz depois de novas batalhas vencidas. Não sou político para dizer que estou curado, mas vou entrar no novo ano zerado, sem remédios, sem tumores e sob o rígido controle da Dra. Fernanda.

Com a cabeça boa, a alma em paz, a saúde em dia, o coração tranquilo e o amor de Erica, filhos, família e amigos chegou a hora de correr atrás de novos desafios e fugir das falsas promessas e dos falsos profetas. Reaprender a sonhar, como diz a música.

Em 2012, dois amigos foram derrotados pela doença e receberam belas homenagens da tv em que trabalhavam. Entre os famosos, difícil não se emocionar com os aplausos que o Gianechini recebeu quando voltou a atuar no teatro ou com a homenagem de Silvio Santos para Hebe Camargo, enchendo-a de esperança com um novo contrato, mesmo já sabendo que ela não teria condições de cumpri-lo.

São nesses exemplos que a gente precisa acreditar, porque  é só abrir o jornal para perceber que o preconceito anda sempre na espreita. Li hoje na Folha que o Estado e a Prefeitura de São Paulo vetaram pessoas que passaram no concurso porque tiveram câncer.

A Justiça devolveu as vagas, mas atitudes como essas só aumentam o preconceito. Quem tem câncer ou qualquer outra doença considerada grave tem uma luta muito mais difícil pela frente. E precisam ser tratadas com dignidade. Não precisam de esmola nem de olhar de piedade. Precisam ser respeitadas por sua capacidade. A luta continua.

Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

 

 

 

Escrito por tieppo às 04h18 PM
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12/11/2012


O Tieppo não para

Recentemente, talvez pela morte de mais uma pessoa famosa por câncer, meus filhos mais velhos quiseram saber notícias sobre meu tratamento. Eu então contei que em um exame de sangue havia dado uma pequena alteração, o que fez a Dra. Fernanda antecipar os exames de imagem. Mas eu contei para eles que a boa nova é que nada havia aparecido e o que é ainda melhor: um pequeno tumor no fígado havia sumido.

Contradições? Quem é que sabe. Prefiro encarar como um pequeno milagre, porque a quimio oral serviria teoricamente para dar uma estabilizada na doença e o fato de ter feito desaparecer o tumor é um ótimo sinal.

Os próximos passos? De acordo com a Dra. Fernanda, vamos fazer um acompanhamento com o tal marcador tumoral. O resultado sai ainda nessa semana e por enquanto estou de férias do tratamento. Encaro essa batalha como uma luta de boxe. Adoraria conseguir logo um nocaute, mas depois de três anos estou levando a melhor por pontos.

E isso eu devo muito a pessoas queridas, que nunca deixaram de me apoiar. Voltando aos filhos. O Gabriel disse que toda noite rezava pela minha cura e que me achava forte por tudo que eu estava enfrentando. E olha que ele não sabe nem 10% do que eu passei, mas como já escrevi outras vezes a solidariedade e as amizades verdadeiras golearam os apoios falsos e protocolares.

Pensando nisso comecei a homenagear algumas pessoas via blog, mas tive que parar. Contei dez histórias e pelos meus cálculos teria outras centenas, mas essas ficam guardadas para um futuro próximo. O Tieppo não para (que saudade do acento no pára) e eu agradeço a todos, inclusive aos fracos de alma, porque me deixaram muito mais forte.

 

 

 

Escrito por tieppo às 12h24 PM
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04/07/2012


Carta a um amigo

Recentemente, um amigo de longa data me contou que tem câncer. Descobrimos que usamos o mesmo remédio, durante a rápida conversa. Ele também faz uso de outro remédio, além de fazer aplicações na veia, o que felizmente eu deixei de fazer há algum tempo.

Ele falou sobre a doença pra pouca gente. No trabalho, apenas para o chefe e só me contou também por saber através do blog da batalha que eu travo contra o câncer desde outubro de 2009. E eu confesso que nesses momentos eu tenho certeza de que fiz a coisa certa. Amigos, parentes, desconhecidos. De vez em quando alguém comenta que leu o blog, que se identificou, ou se emocionou, ou se assustou, ou simplesmente quer me dar uma força.

Já que eu abri o jogo é natural que as pessoas fiquem curiosas. A boa notícia é que não há novidades. Estou em uma fase de manutenção, para usar a frase da nova médica que tem me acompanhado, a Dra. Fernanda. Não há absolutamente nada que eu não possa fazer. Estou liberado até pra voltar a correr, devagarinho, até retomar a antiga forma.

De volta ao velho amigo. Eu o compreendo. No início também contei pra poucas pessoas, além da família e dos amigos mais próximos, tive que contar para algumas pessoas do trabalho. Esconder da maioria é como tentar negar a doença. É uma fase que temos que superar.

Meu velho amigo não é uma decisão fácil. Você talvez encontre o preconceito disfarçado e de vez em quando vai se decepcionar com pessoas que precisam saber da doença e que não mereciam. Mas tenha certeza que a solidariedade é muito maior.

Conte comigo e faça aquilo que o coração mandar. No meio do caminho, alguns podem achar que você vai morrer (todos vão um dia). Outros talvez duvidem da sua capacidade por ignorância e má fé. Mas nós crescemos a cada batalha vencida e nos fortalecemos para mostrar como diz a música que a vida é bela e só nos resta viver.

 

Escrito por tieppo às 10h19 AM
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01/06/2012


Face to face parte 2

Demorou, mas a lista de amigos, parentes, conhecidos e afins vai subir para 10 agora.

Marcos Eduardo Massolini - O Malu. Nascemos no mesmo dia, mês e ano. Nos chamávamos de irmãos de álcool, na época da Metodista. Profundo conhecedor de música, tem uma coleção invejável. Devo ao Malu um mergulho no rico mundo dos Rolling Stones. A amizade já completou Bodas de Prata e caminha a passos largos rumo ao ouro.

Uma frase inesquecível - "Brincanagem, sacaneira". Em 89, eu, Malu e Flavinho fomos conhecer o Rio de Janeiro e as palavras da moda entre os cariocas eram essas. Repetíamos isso o tempo todo e ríamos muito.

Toninho Neves - O cara que ao lado de Arthur de Almeida me colocou no admirável mundo novo da TV. Companheiro de Copas Américas e Copa do Mundo já discutimos muito por causa do futebol. É difícil vencer o amigo santista nos argumentos, que uma vez quis me convencer que o Corinthians era o bicão no Mundial de 2000 e não o Vasco. Desce mais um chopp, que é melhor

Uma frase inesquecível - PalavrãoToninho tem o apelido de Boca Suja, mas vive um período de Toninho Paz e Amor. Brincadeira à parte, a palavra que ele mais usa é "Intelectual".

Fernando Galvão de França - Fomos vizinhos em Santana e um dia ele me deu um toque sobre uma vaga na editoria de esportes do NP. Eu tinha acabado de sair da Folha da Tarde, trabalhava na assessoria de uma faculdade, com finais de semana livres e um salário praticamente igual. Mas não teve jeito, o vício falou mais alto. O segundo toque que ele me deu foi sobre uma vaga na Globo, quando finalmente trabalhamos juntos. Outro amigo corinthiano, maloqueiro e sofredor.

Uma frase inesquecível -  "Desse ano não passa, Tieppão". Fernando falando sobre as chances do Corinthians na Libertadores. Licença poética, amigo, licença poética.

Fernando Gavini - Um grande garoto, hoje não tão mais garoto assim. A Gazeta Esportiva em 98 começou a colocar estagiários vindos da Cásper Líbero para trabalhar no jornal. Gavini foi um deles. E pouco tempo depois começou a cobrir comigo o Corinthians. Viramos Batman e Robin, mas sem viadagem. Talentoso, bom de papo, ficou uns anos a mais na faculdade, porque gostava muito do "JUCA" e do "CA".  

Uma frase inesquecível -  "Já tô chegando". A pontualidade não era o ponto forte do amigo.

Dom Carmo - Lédio Carmona. O amigo que me apresentou Londres, depois da Copa de 98, na França. Ele conhecia a capital inglesa muito bem e só se perdeu quando eu pedi pra ir até "Abbey Road", pra poder atravessar a mesma rua que os Beatles. Ele considerou a jornada um mico. Pai do pequeno Bob, outro dia contei pra ele que o meu filho Gabriel adorava os seus comentários. Tem bom gosto o meu garoto.

Uma frase inesquecível - "Você tem cara de que quer viajar depois da Copa?". Você estava certo, meu amigo.

 

 

 

Escrito por tieppo às 12h04 PM
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25/04/2012


Face to face

Eu não sei qual o critério para a ordem das fotos dos amigos e parentes que aparecem no facebook, mas é sempre uma forma de lembrar de alguma história, ou matar a saudade, ou ficar feliz porque eles estão ali presentes, mesmo que virtualmente.

E olhando para a cara de cada um resolvi contar, de cinco em cinco,  pela ordem que aparecem no momento, um pouco sobre as pessoas que fazem parte da minha história.

Paulo César Martin - O popular Paulão. Trabalhei seis meses com ele no Notícias Populares, em 96, e o reencontrei na Globo, onde voltamos a dividir o mesmo espaço de trabalho. Apaixonado por música e por esporte, ele tem sido um grande amigo e conselheiro. Boa praça, corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus.

Uma frase inesquecível: "Se vc me trouxer um disco do Doors, Arnaldo Ribeiro, eu jogo ele pela Window". Em tempo, Paulão, eu também gosto do Doors.

Érica Hobi - Nas voltas que a vida dá, de repente o passado vira presente e o amor escondido transborda no reencontro, como se tudo estivesse planejado há tempos para acontecer na hora certa. Amor da vida, mãe do Felipe e da Camila, companheira de todas as horas, uma grande mulher.

Uma frase inesquecível: "Força na peruca".

Gabriel Tieppo - Um filho apaixonante e atualmente apaixonado. O garoto nasceu em 95, ano em que o Corinthians ganhou tudo: Paulista, Copa do Brasil, Copa São Paulo e até o Carnaval com a Gaviões. Meu Deus! Praticamente imbatível no futebol do videogame, sempre me salva quando o assunto envolve algum aplicativo novo do Iphone. Companheiraço.

Uma frase inesquecível: "Pai eu quero assistir o Corinthians e não o Ronaldo", em resposta ao pai que tentava convencê-lo de que não valia a pena ver a estreia corinthiana no Brasileiro de 2009.

Luisa Tieppo - Uma menina de ouro, que virou uma linda mulher. A filha que todo pai gostaria de ter. Leitora voraz, vai agora dar aulas de inglês. Já ganhou concurso de poesia na escola, soltou uma frase que virou sucesso no twitter e escreve maravilhosamente bem, corujices à parte.

Uma frase inesquecível, na verdade uma palavra: "Baby", ela falava isso ainda bebê quando pegava o boneco da Família Dinossauro. A segunda palavra que ela aprendeu, porque a primeira, obviamente, foi "papai".

Flavio Micali - Esse é dos tempos da Metô. Um grande amigo, parceiro de viagens, bares, restaurantes, baladas e afins. Já são 25 anos de amizade e o maluco até perdeu um pouco de cabelo, que nunca foi o forte dele, diga-se de passagem, mas manteve o jeito de garotão, sempre com um sorriso no rosto e um conselho certeiro pra dar aquela reanimada. De vez em quando, o cara ainda ataca de cupido.

Uma frase inesquecível: "Lembra da Érica Hobi?". Pois é Flavinho, lembrei, reencontrei, casei, mudei, tive mais dois filhos e vivi feliz para sempre.

 

 

Escrito por tieppo às 10h11 AM
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18/04/2012


A hora da virada

Os últimos exames mostraram que o câncer está estabilizado. Os médicos estão animados, o tratamento promete ser longo, mas chegou a hora da virada. O Dr. Paulo Hoff me comparou a um outro paciente dele. "Ele já trata desse tipo de tumor há seis anos com os remédios que você está tomando. Qualquer dia vou apresentá-lo. Ele compra fazenda, vende fazenda. É bom pra você ver que existe vida depois do câncer".

Como vocês notaram, a coincidência com o meu companheiro de doença fica mesmo só na doença. Mas se a batalha promete ser longa, é bom saber que o avanço da medicina permite sonhar com dias cada vez melhores, sem perder a qualidade de vida.

A outra boa notícia é que as aplicações na veia foram suspensas. Continuo agora apenas com a quimio oral. O que isso significa: o fim das dores no braço na hora da aplicação, menos cansaço e o fim do incômodo na garganta. Já me sinto bem melhor durante os jogos de tênis semanais e vou ver se em breve consigo liberação pra voltar a correr.

E por falar em tênis. Ontem folheei um livro do ex-tenista Marcelo Meyer, que eu tinha há muito tempo e acabei reencontrando, porque o apê estava sendo pintado e no meio da bagunça ele apareceu na minha frente. E não é que na última história, ela fala sobre uma garotinha, Carla Foschini, que aos 15 anos descobriu que tinha câncer. Aluna de tênis dele, ela venceu a luta pela vida e hoje está aí firme e forte.

A gente cresce muito nesse período. E como o blog meio que virou uma forma de atualizar amigos e familiares sobre o tratamento, além de eventualmente ajudar pessoas, que passam pelo mesmo problema ou têm conhecidos nessa situação, trago essas boas novas.

Bons amigos, boas novas, boas vibrações. A luta continua, mas com tanta gente na torcida, a vitória é só uma questão de tempo.

 

 

 

 

 

Escrito por tieppo às 10h13 AM
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13/03/2012


Força na peruca

Na sexta-feira começa o sexto ciclo de um tratamento, que eu ainda não sei quando vai acabar, mas que já dura 100 dias. E nesses 100 dias o cansaço aumenta de vez em quando, os pés doem um pouquinho, a garganta fica mais sensível na primeira semana, mas no geral tudo vai bem, na medida do possível.

E a cabeça? Essa já é complicada quando você está bem de saúde, imagina então com uma doença que vive nas manchetes dos jornais e geralmente longe de um final feliz. Geralmente, mas nem sempre.

No domingo, no caderno Ilustrada, a atriz Drica Moraes comemorava a volta aos palcos, depois de se curar de uma leucemia. E mandava um recado para o Reinaldo Gianechini e o Lula: "força na peruca". Achei engraçado, porque é a expressão que a Érica, minha companheira de todas as horas, repete dia sim, dia não. "Força na peruca, não vai desistir agora".

Pode até parecer pouco pra quem vê de fora, mas esse tipo de incentivo ajuda e muito. Outro dia um amigo do trabalho disse que admirava a minha coragem, que eu era uma fortaleza. Quase chorei com as palavras porque fiquei feliz por passar essa imagem.

Na semana passada, um encontro com alguns amigos da faculdade também me emocionou. Malu colocou em uma cartolina boletins e jornais feitos por nós, ingressos de shows da época, cartões postais que enviamos quando tiramos férias e fomos conhecer o Rio, etc e tal. Atrás da cartolina cada um dos presentes escreveu uma pequena frase me dando aquele apoio. Bom demais.

Algo parecido aconteceu em 2009, um pouco antes da primeira cirurgia. Isabella Gubert, amiga querida, comprou um cartãozinho e o pessoal do esporte da Record escreveu belas frases, guardadas até hoje.

Passar por isso tem sido um belo aprendizado de que a vida pode ser mais simples. Ouvir Beatles quando a coisa aperta (bela sugestão do Paulão), o que faço quase todos os dias, não pelo aperto, mas pelo apreço. Ficar mais próximo dos filhos, das pessoas queridas, dar valor ao que de fato é valoroso. E curtir a vida ponto a ponto, game a game, set a set, não é meu amigos de tênis Dario Leite, Andrei Kampff, Marcelo Carloto???

O sorriso da Camila, o bate-bola com  o Fefê, as partidas de videogame com o Gabriel, as conversas e os discos doados para a Lulu. O exercício diário de enxergar a beleza nas pequenas grandes coisas.

Escrito por tieppo às 10h40 AM
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11/01/2012


Amigos, amigos

Giba e Condé. Dois amigos de épocas distintas, que se foram recentemente, vítimas da mesma doença. Eu nem sabia que os dois estavam com câncer e se soubesse teria procurado falar mais com eles, encontrá-los, etc e tal.

A vida prega essas peças e é por isso que o post de hoje vai falar mais de esperança e de agradecimento. Quando eu decidi falar abertamente sobre a doença sabia que não seria muito fácil. Isso porque quem me conhece há mais tempo sabe que eu não sou muito de me expor. Mas posso garantir que apesar dos percalços e de assustar algumas pessoas queridas, o saldo foi extremamente positivo.

 No final do ano passado, um pouco depois de iniciar a quimioterapia, que tirando uma bolha e outra no pé, vai indo muito bem, obrigado, recebi o telefonema de um velho amigo de faculdade, o Malu. Ele e o Nilson, outro amigo daquela época, queriam saber se podiam me visitar. Não só podem como devem, pensei comigo. E eles atravessaram a cidade, em uma daquelas sextas-feiras paulistanas, com água transbordando pra todo lado. Um veio de São Caetano, outro de Alphaville. Chegaram sãos e salvos, um pouco mais tarde do que previam, e demos muita risada das boas lembranças que nos unem até hoje, apesar da distância.

Na hora da despedida eu falei pros dois que queria muito revê-los pra mostrar que estou bem. Aliás, nunca estive tão bem, fisicamente falando e também de cabeça, o que é sempre importante. Sei que se eu recebesse a notícia de que alguém próximo estava com câncer, antes de eu ter a doença diagnosticada, também pensaria no pior, mas você só vai procurar saber detalhes da doença e entender os diferentes estágios se isso acontece com você mesmo ou com alguém querido.

Como nem tudo são flores também já vivi o outro lado. Recentemente, em uma das festas de fim de ano da Aceesp, que eu frequento desde que Luisa e Gabriel eram pequenos, um colega que não me via há muito tempo me saudou: "Tieppo, tinham dito que vc tava fudido, com câncer. Que brincadeira mais sem graça o cara fez comigo...". Entre assustado e perplexo fui salvo pelo amigo João Henrique e nem sei bem ao certo o que ele respondeu, mas será que todo mundo associa alguém com câncer ao estágio terminal da doença??

Nesses dois anos e três meses de luta já disseram que eu ia morrer, já tentaram me matar de outras formas, mas, como diria o Velho Lobo Zagallo, esses poucos ainda vão ter que me engolir durante um bom tempo.

Só que o post, como eu escrevi no início, é pra falar de agradecimento e de esperança. Não sabemos o dia de amanhã, mas eu sei que hoje eu sou muito feliz por poder ter ao meu lado mulher, filhos, família e amigos, muitos amigos queridos, que estão sempre por perto e não deixam a peteca cair.

Desculpe não poder citar um por um, porque com certeza eu esqueceria de alguém, mas vocês sabem o quanto estão me ajudando.

É isso. Podemos morrer atropelados na calçada por um maluco bêbado, podemos morrer atingidos por um raio na praia e podemos até morrer de câncer. Até lá o jeito é viver da melhor maneira possível, amando, sofrendo, acertando, errando, mas sempre com a consciência tranquila.

Feliz Ano Novo! 

Escrito por tieppo às 11h33 AM
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26/10/2011


Mudando de fase

 

"Cause I need more time, yes I need more time, just make things right.."

Tenho escutado "Don´t Go Away" do Oasis. E na onda do Don´t ainda rola "Boys Don´t Cry", do Cure e "Don´t Stop me Now", do Queen. Ainda não cheguei em "Don´t Let me Down", dos Beatles, embora adore essa música, mas vou mudar de fase, como se minha vida fosse um videogame.

É hora de usar outras armas na guerra. A luta continua e para combater o mau humor dos tumores chegou a hora de usar uma quimioterapia oral. No início de dezembro, com ou sem aprovação de convênio, uma nova batalha já tem data pra começar.

 O tumor que parecia bonzinho só tem cara de bonzinho pra usar a definição de quem agora se junta aos médicos que cuidam de mim: Paulo Hoff.  Paulo, Rodrigo, Carneiro, Marcos, José Rodrigues. Estou em boas mãos e o desânimo temporário já já vai embora.

Com a família e os amigos que eu tenho tudo fica mais fácil. As férias estão chegando. Vem aí uma quase nova lua-de-mel.

That´s all folks!

 

 

 

Escrito por tieppo às 02h29 PM
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, VILA MARIANA, Homem, de 36 a 45 anos, Jornalista

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